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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O DRAMA DE EROS

O verdadeiro e mais profundo sentido de Eros não é a satisfação individual do homem e da mulher, nem tampouco a procriação da prole. Eros tem um back-ground, um fundo ou substrato de natureza metafísica, cósmica, universal, que não é conscientemente percebido pelos sexos. Por detrás da conhecida profundidade da libido canta a ignota sacralidade de Eros...

Esse substrato cósmico de Eros é o anseio pelo retorno à fonte universal de todas as coisas individuais. Os indivíduos orgânicos, resultantes da união dos sexos, representam um processo centrífugo, dispersivo, rumo à periferia. Por que é que Eros tem o poder de individualizar novas vidas? Unicamente porque, no ato sexual, retorna ao oceano imenso da vida cósmica experimentando, geralmente, na estranha embriaguez do orgasmo voluptuoso.

A eterna Realidade não tem sexo. O Absoluto é essencialmente assexual. O homem – isto é, o ser humano como tal, o homo, o ântropos, o Mensch; não o vir, o anér, o Mann – desconhece sexo. A ramificação em dois sexos é o primeiro passo para a individualização do homem universal.

Entretanto, o homem assim individualizado em macho e fêmea conserva nas incônscias profundezas da sua natureza a reminiscência do que foi na sua fase pré-sexual e o que continua a ser, mesmo agora, na íntima essência do seu ser humano. Essa silenciosa nostalgia do seu estado puramente humano, pré-masculino e pré-feminino, ecoa perenemente em cada uma das células do varão e da mulher. A união sexual é uma tentativa de retorno dos dois ramos da árvore humana, macho-fêmea, ao tronco único da natureza humana como tal; o vir e a fêmina anseiam pelo homo; o anér e a gyné suspiram pelo ânthropos; o Mann e a Weib tentam reconstruir o Mensch.
Rohden

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

EU SEMPRE RECOMENDO


JOSEPH CAMPBELL

'EU SEMPRE RECOMENDO:VÃO ONDE SUA ALMA E SEU corpo desejam ir.Quando você sentir que é por ai mantenha-se firme no caminho e não deixem ninguém desviá-lo dele.'

'Poetas são simplesmente aqueles que adotam como profissão e como estilo de vida o estarem em contato com a própria bem-aventurança.A maioria das pessoas se preocupa com outras coisas,envolvem-se em atividades econômicas e políticas ou se deixam enganar em uma guerra que não é aquela que estão interessadas.Nessas circunstancias é muito difícil manter-se fiel ao propósito essencial.Trata-se de uma técnica que cada um precisa desenvolver por sua própria conta.
Pretende-se dedicar a fortuna ou a bem-aventurança?
Persiga sua bem-aventurança e não tenha medo,que as portas se abrirão ,lá onde vc não sabia,que haviam portas e mãos invisíveis lhe ajudaram.'

'Poesia consiste em permitir que a palavra seja ouvida para além das palavras.

Eis a função da poesia.Ela é uma linguagem que deve ser assimilada aos poucos,cuidadosamente .Ela envolve uma escolha precisa de palavras,cujas implicações e sugestões,ultrapassam as próprias palavras.Graças a isso,você experimenta o esplendor ,a epifania ,eu é uma aparição da essência.'


CLARICE LISPECTORE

Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

MANOEL DE BARROS

A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia",

Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações.

Infância


'A INFÂNCIA É MEDIDA PELOS SONS E CHEIROS E PAISAGENS, ANTES DA HORA ESCURA QUE A RAZÃO CRESCE.'

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sinal Vermelho


(Homenagem ao poeta José Alcides Pinto)

Sinal vermelho. Da janela do meu carro avisto o velho poeta atravessando a rua. Meus olhos vão seguindo aquele vulto, meio capiongo, já passos lentos. Vai conduzindo sua solidão ou por ela vai seduzido.

A solidão do poeta é povoada por seres deste e doutros mundos. Olho da janela do meu carro. O poeta não precisa de automóvel, é alado, e diáfano, por isso a multidão nem desconfia que ele existe.

Ele mesmo se pergunta, ou aos deuses, quem sou eu?, mas não obtém resposta. Aliás, respostas não são o forte dos poetas, que se contentam com as dúvidas. Para onde vai o turbilhão? Sem saber, os carros param para o poeta passar, a rua pára, o vento dispara uma rufada de gratidão. O semáforo é quem decide: vida ou morte. As calçadas esquivam-se dos pedestres.


O velho poeta segue repletamente vazio. Seus labirintos lhe bastam, o que não olha é o que vê. O velho poeta vai sobraçando papéis avulsos e a lânguida certeza de que a morte é conspiração. Uma certeza íntima, pouco lembrada, que resulta em mistério, contravenção ou metafísica.


Sou a platéia do velho poeta. Vejo-o transitar pelos meandros da babilônia e penso: a cidade inteira é menor do que o velho poeta.

Texto de Carlos Roberto Vazconcelos

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A máquina do tempo




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O poder de evocação das palavras
O pintor Francisco de Goya (1819-1823) pintou um quadro sinistro que representa o deus Chronos devorando um dos seus filhos. A brutalidade plástica e a verdade da tela estão no fato de que ela nos confronta com o nosso destino: à medida que o tempo passa a vida se vai.

O tempo faz o vivido desaparecer no esquecimento. Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, descreveu essa tristeza de sentir a vida escorrendo para o passado num poema: "O tempo passa. Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase maliciosos, sentir-nos ir. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora sempre".

Por isso eu escrevo, para lutar contra o tempo. A escritura e a leitura fazem os mortos ressuscitar. A escritura e a leitura fazem o passado acontecer de novo. Por isso, ao ler o que aconteceu e não mais existe, nós rimos e choramos como se aquilo que aconteceu estivesse acontecendo de novo. E foi isso que aconteceu comigo. Envelhecendo, tive medo que o meu passado se perdesse.

Resolvi, então, escrever o meu passado, um passado feliz que o tempo me havia roubado, para oferecê-lo às minhas netas. Queria que, quando eu morresse, ele continuasse vivo na memória delas. Escrevi um livro contando a vida que vivi quando menino, na roça. Descrevi a casa velha, pintada de branco. Contei sobre os riachos e as árvores, sobre as noites silenciosas, sobre os ruídos dos bichos na mata, sobre os céus escuros iluminados por milhares de estrelas, sobre o fogão de lenha e sobre a luz das lamparinas iluminando a sala. E sobre algo impensável para elas: não havia eletricidade. Não havia geladeira. As comidas eram guardadas em armários de tela chamados guarda-comidas.

Publicado o livro, elas não demonstraram o menor interesse naquilo que eu contava porque o mundo em que eu vivera e amara lhes era estranho. Quem se interessou foram os velhos. Afinal, aquele era um mundo que também fora deles.

Passado algum tempo recebi um e-mail em inglês: uma mulher... Desculpava-se pelo inglês. Era uma emigrante egípcia. Entendia bem o português, lia os meus livros e gostava deles. Escrevia-me para me dizer que, no meu livro para as minhas netas, eu usara uma palavra que a apunhalara...

Uma única palavra com o poder de apunhalar! Que palavra poderosa poderia ter sido essa?

"Fui apunhalada pelo guarda-comida", ela disse. "Eu havia me esquecido de que essa palavra existia. O tempo a mergulhara no esquecimento. Mas, quando a li, o meu passado voltou. Instantaneamente, me vi menina de seis anos na cozinha da minha casa no Cairo, sessenta anos antes. Lá havia um guarda-comida." E ela disse o nome em francês: garde-manger. "A palavra anulou o espaço: atravessei o Atlântico... A palavra anulou o tempo: o passado ficou presente, ressuscitou do esquecimento..."

Aprendi então que máquinas do tempo existem. Elas se chamam "palavras". Podemos, então, pintar uma tela que é o inverso da tela que Goya pintou: a vida devorando o tempo...

Rubem Alves Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Arte


A arte alimenta-se de ingenuidades, de imaginações infantis que ultrapassam os limites do conhecimento; é aí que se encontra o seu reino. Toda a ciência do mundo não seria capaz de penetrá-lo.
Lionello Venturi

domingo, 5 de dezembro de 2010